quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ultra dos anjos


Ingraçado mudei tanto meu estilo de vida, que ha tempos queria escrever, mas nao achava a hora certa, e agora sentado em um balcão, em um pequena cidade no interior de minas, enquanto aguardo um sujeito, resolvi escrever. Ou seja, não escrevia por preguiça, pelo comodismo do sossego que tenho vivido nas ultimas semanas. E agora a algumas horas da largada da prova, que com certeza sera meu maior desafio como corredor, escrevo-o.
                Mais ingraçado ainda e que a cada momento pensamos em algo para escrever, e a forma de colocar isso no papel sem que o texto fique bem loooooongo. Mas refleti a respeito e percebi que tenho vivido essa corrida a pelo menos 6 meses, e de uma forma bem intensa a uns 45 dias e nos últimos 30 dias, vivi para ela. Alimentação, saídas, treinos, sono, descanso, tudo pensando em como estar bem para o grande dia.
                Quando recebi a noticia do mestre Branca que poderia correr a ultra dos anjos solo, quase nem dormi de tão alegre, passados alguns dias, me acostumei com a ideia, e diminui a empolgação, mas o respeito pelos longos e infinitos metros de terra batida e asfalto, não, esses eu nunca esqueci, pelo contrario calculei ate quantos passos darei, algo em torno de 294.000 passos, que pretendo fazer em 48horas, que daria um numero um pouco menos interessante, 173.000 segundos.
Mas agora que faltam apenas algumas horas para essa jornada começar esses números devem ser repensados, mas serio, serio mesmo, mesmo com o calor feito em Curvelo, ou no frio de BH com jaqueta de frio, sinto um frio bem gelado na barriga, um frio que se torna mais forte a cada minunto que essa jornada se aproxima.
                Tem acontecido algo comigo que nunca me aconteceu antes, sonho com a prova a algumas noites, tenho tido noites mal dormidas, e um medo que nunca senti antes, não medo de temer, perder, não, medo de saber o que eu realmente posso fazer, meus potenciais, medo por não saber o que serei depois desse desafio. Sim isso muda a gente por inteiro, nos dias da provas e alguns dias depois, mudamos o corpo, que vai precisar de algo em torno de 30.000 kcal, depois a dor latejante dos músculos, e ai vem algo maior e mais profundo, nossa mente. Cada um muda de um jeito, com uma intensidade, com uma experiência, com seus objetivos.
                Falar de uma corrida tão superlativa assim causa alguns espantos, e o mais interessante que vivi foi quando me perguntavam quanto tempo eu corro por dia ou distancia, e qual meu recorde, e ao dizer sobre os 235 km e as suas 60 horas, as pessoas ficavam admiradas, ou bestas, ou  surpresas. Os corredores de distancias menores, diziam que nunca iriam correr aquilo, os butequeiros, que estavam cansados so de ouvir falar e que prefiriam ir no carro bebendo e que a cada passo seria um gole de cerveja, já os mais religiosos, que sera um bom momento para refletir sobre minha vida, já os médicos, que o homem não foifeito para aguentar isso. Já eu, nem sei o que dizer mais, e prefiro o conselho de um amigo, que sera simples, basta coloca um pe na frente do outro.
                A cada segundo passa um filme na minha cabeça de tudo que passei para chegar nesse momento, dos esforços, dos treinos, dos treinos não feitos, das amizades, amores, amigos, tudo. Passa também a aflição de não conseguir completar a prova e ser desclassificado por exceder as 60 horas, assim como ocorreu na volta a ilha, que junto do amigo, Rodrigo Vilalba, fui desclassificado por exceder o tempo limite em 15 min.
                Agora termino esse artigo aqui em Passa Quatro, as 20:00 da noite anterior a prova, com 3 grandes amigos, João, Renato e Marcos. São três homens, e o pudor já não existe mais, as brincadeiras não param, e a sintonia entre nos e a melhor possível, tudo ocorrendo dentro do planejamento. Apesar de as 5:30, saindo de casa, não tinha o carro que iria viajar com ele, e o Renato dispôs seu carro, o que salvou nos 48 minutos do segundo tempo.
                Mas aqui aprendi mais uma lição. Quem corre ultramaratonas esta mais exposto aos azares que  corredores de outras distancias, diferentemente de outras corridas, elas duram as vezes 12 horas, ora 24, e outras ate com 60 horas. Treinamos por meses afinco, gastamos dias e dias preparando e treinando. As provas na sua grande maioria precisam de um bom planejamento, que também demandam tempo. Imprevistos com certeza vão ocorrer, mas o que vai fazer essa prova ser boa, ruim, prazerosa ou sofrida, é o apoio, as amizades que conquistamos nessa jornada. Elas fazem tudo, cada momento ser especial.
                Escrever sobre treinos, dificuldades, cada um tem a sua, mas no final so superamos tudo isso com o apoio desses anjos que achamos pelo caminho.
A todos que me apoiaram de alguma forma, meu muito obrigado, pelo carinho, atenção, apoio, por tudo. Agora vou dormir, pois amanha começo as 8 uma jornada magica.

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